Quando as crianças dão o tom do projeto de Ciências!

Quem poderia dizer o que mais interessa a uma criança senão ela mesma? Quais ideias surgem quando é delegado aos estudantes a tarefa de determinar seu próprio projeto de pesquisa? Quais competências e habilidades são desenvolvidas nesse processo? A experiência feita pela professora de minha filha ajuda a enxergar algumas respostas a essas e outras perguntas.

Há pouco tempo tomei contato com a iniciativa de uma professora do terceiro ano do Ensino Fundamental I com relação ao seu projeto de ciências para o segundo bimestre.  Soube disso pela minha filha, sua aluna. Como toda boa professora, ela preparou um plano de trabalho; verificou a pertinência dessa escolha para a faixa etária; pensou no tempo que seria dedicado para as tarefas; trabalhou conteúdos prévios para preparar os alunos para os assuntos; selecionou um escopo de atuação e pesquisa que fizesse parte do universo mais próximo de cada criança; e no final, deu asas à imaginação, numa estratégia pedagógica que pode e deve ser imitada por professores de outras disciplinas. 

O que ela fez de tão bacana? Deixou que os alunos escolhessem, dentro do campo temático de ciências, que temas gostariam de estudar. Parece simples, né? Mas é preciso um senhor jogo de cintura para dar conta de tanta imaginação e tantos tentáculos de pesquisa que podem surgir a partir dessa mera proposição pedagógica. 

Vejamos: o primeiro passo foi decidir com cada um – embora todos pudessem alterar seu tema se sentissem vontade – que assunto seria pesquisado e por qual razão. Nessa etapa preliminar os alunos tiveram que fazer um exercício muito similar ao dos cientistas: eleger um “objeto de estudo”. A partir daí, seria importante também refinar um pouco o campo de interesse para que não fosse algo tão amplo que se tornasse impossível de ser pesquisado. Algo vasto e grandioso como “o mar”, por exemplo. Interessante, claro, mas quantos milhares de aspectos científicos não poderiam ser relacionados a esse tema? Talvez “a água do mar e suas características”, fosse mais plausível, não acham? 

Bem, o exercício de síntese foi um start fundamental fazendo com que cada aluno repensasse seus interesses à luz de sua capacidade concreta de realização de pesquisa. Minha filha, por exemplo, começou querendo saber mais sobre esqueletos dos animais. Logo percebeu que precisaria escolher algum tipo de animal para a pesquisa ficar um pouco mais precisa e sintética. Do contrário, o céu (ou o esqueleto!) seria o limite. 

Um pouco mais sobre o passo a passo do projeto pedagógico 

Voltando à estrutura do projeto, o trabalho de cada aluno começou escolhendo o tema, refinando-o, fazendo um desenho artístico preliminar associado ao campo de interesse, depois escolhendo uma forma de apresentar/representar o que viria a ser aprendido a partir de pesquisas em livros, conversas com especialistas e investigações na web. A professora permitiu que vários suportes de apresentação fossem usados: de vídeos curtos feitos no celular, passando por maquetes, cartazes, fichas de apresentação, esquemas desenhados no quadro ou até mesmo a boa e velha exposição oral, demonstrando o conteúdo aprendido. 

Um ponto interessante dessa iniciativa é mostrar para a criança que toda investigação de cunho científico tem um passo a passo, uma hipótese e um objetivo. Que é importante, tanto quanto possível,  tomar notas, comparar e verificar se as informações colhidas fazem sentido. Depois é também crucial resumir o que foi aprendido para que fique inteligível para pessoas que não participaram desse processo. Os demais alunos, por exemplo, que estavam estudando outros temas, quando fossem participar da apresentação dos “esqueletos dos animais”, teriam que ficar “na mesma página” de quem estudou o tema. Mais algumas habilidades importantíssimas foram aí estimuladas: a de comunicação oral, clareza de pensamento, sequenciamento lógico de informações, atratividade e qualidade do material colhido. Posso dizer que minha filha ficou eufórica durante todo o processo. Acabou chegando à conclusão que gostaria de falar do esqueleto dos tubarões, algo bem mais específico e que saltou aos seus olhos quando soube que um amigo meu, professor de Biologia, dispunha dessa cartilagem real (entre outras ossaturas de peixes e seres aquáticos) com crânio, arcadas, cauda e clásper. Só de olhar para aquela coleção de ossos que ele nos emprestou já abriu caminho para mil novas curiosidades. Lá foi minha filhota para o computador organizar informações sobre o conteúdo e a cada descoberta ela me contava, com os olhinhos atônitos, sobre a dentição do tubarão, os vários tamanhos das inúmeras espécies, as propriedades dos ossos quando jovens e idosos, etc, etc… 

Em sala, sua apresentação foi oral, com auxílio de uma ficha onde havia escrito os detalhes para não esquecer nada em sua fala e de uma caixa contendo os ossos do tubarão. O material passou de mão em mão e todos ficaram curiosos em tocar a arcada dentária pontiaguda, perigosa ao tato, necessitando que tivessem um grande cuidado no manuseio. 

Outros temas tratados pelo grupo? Conto agora: a sonda chinesa que foi enviada à Marte e que pousou no lado oculto da Lua, os elementos químicos da produção de slime, o que é ecoeconomia, como age um vulcão, tipos de rochas e animais abissais, placas tectônicas, e por aí vai. Se com todo esse cardápio de temas, subtemas, enfoques, pesquisas e formas de apresentação essa professora não conseguir estimular o pensamento científico desse grupo, não consigo imaginar o que mais o faria!! 

Por tudo isso, minha dica é para que os professores, sempre que possível, descubram o que passa pela cabeça curiosa de seus alunos e possam com isso dar corda para sua imaginação e espírito investigativo natural. Os resultados de aprendizagem certamente serão recompensadores. 

P.S: Professora Sylvia Faillace, por favor continue nos surpreendendo com suas propostas! 

*Debora Garcia é pedagoga, mestre em Educação pela UFF, fulbright scholar pela Georgia State University, GA e especialista em Gestão do Conhecimento pela COPPE-UFRJ. É Gerente de Conteúdo do Canal Futura e uma das autoras do livro “Destino: Educação – Escolas Inovadoras”, publicado pela Fundação Santillana/Ed. Moderna. Em 2017, em conjunto com Daniela Kopsch e Daniela Belmiro, idealizou e criou o blog “3DEVI”, um espaço para contos, ensaios e reflexões da mulher contemporânea.

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